01/03/2010
- Fonte: Revista Campo & Negócios n° 84
Nos últimos anos observações em campo indicam que tem aumentado a importância da cercosporiose, especialmente em regiões de expansão da cafeicultura, como no Cerrado. As causas para este aumento de importância não estão bem esclarecidas, mas podem estar relacionadas ao aumento da agressividade do patógeno, prevalência de condições climáticas mais favoráveis, como as da safra atual, além de outros fatores.
O aumento do nível tecnológico observado nos últimos anos na cafeicultura fez com que se prestasse mais atenção a todos os fatores nutricionais e fitossanitários que pudessem reduzir a produtividade. Talvez por isso tenha-se prestado mais atenção às doenças como a cercosporiose, que afeta a produção da cultura e a qualidade da bebida.
Evite erros
Na prática os erros mais comuns que a pesquisadora do Instituto Biológico, Flávia Rodrigues Alves Patrício, tem observado são o atraso no início do tratamento químico desta doença, ou descuidos no tratamento da cercosporiose quando as condições climáticas estiverem favoráveis no período de formação dos frutos. “Há também muitos erros de diagnóstico, já que a doença pode causar lesões sem o centro pardo (características) que podem ser confundidas com outras doenças”, diz.
Quando a cercosporiose está presente na lavoura no período de três a quatro meses após o florescimento, na época de formação dos grãos, causa a queda de frutos. Este fenômeno ocorreu nesta última safra, especialmente em lavouras irrigadas e naquelas localizadas em regiões mais quentes.
“Frutos maiores não foram atingidos e não caíram, entretanto, houve queda de frutos em formação, especialmente no mês de dezembro. Pode-se concluir, portanto, que esta doença pode limitar seriamente a produção dos cafeeiros, caso tenha sua incidência aumentada no período de formação ou crescimento dos frutos”, avisa Flávia Patrício.
Para evitar erros no diagnóstico, ela sugere que o responsável pela cultura tenha sempre a mão uma lente com aumento de 10 vezes (como as usadas para a detecção de ácaros) e proceda ao exame das lesões duvidosas com a lente, especialmente na face inferior das folhas, em que a esporulação do fungo é mais abundante.
Sintomas da doença
A doença se caracteriza por lesões mais ou menos circulares nas folhas, com 0,5 a 1,5 cm de diâmetro, de coloração pardo clara, com centro branco-acinzentado. Lesões pardo-claras, com dois ou mais centímetros de diâmetro, mas sem o centro branco-acinzentado, têm ocorrido nos últimos anos, dificultando o diagnóstico da doença.
As folhas atacadas caem rapidamente, ocorrendo desfolha e seca dos ramos. Em viveiros, alerta Flávia Patrício, as lesões nas folhas causam desfolha intensa, que podem atrasar o seu desenvolvimento. “A doença pode derrubar os frutinhos em expansão, mas em frutos expandidos as lesões são caracterizadas por pequenas manchas castanhas, deprimidas, que, à medida que o fruto amadurece, fazem com que a casca fique aderida ao mesmo, dificultando seu desprendimento durante o beneficiamento, fato que prejudica a qualidade da bebida. Nos frutos e nas folhas as lesões são mais frequentes no lado ensolarado da planta”, aponta.
Prevenção
As mudas devem ser produzidas em substrato com adubação equilibrada e faz-se o tratamento químico das mudas com fungicidas a cada 15 ou 20 dias. Nas lavouras adultas previne-se a doença por meio da manutenção de um bom estado nutricional das plantas e do equilíbrio na relação entre nitrogênio e potássio.
O controle químico da cercosporiose também é parte integrante do controle fitossanitário da maioria das lavouras de café.
Controle químico
Nas mudas procede-se o controle químico a partir do primeiro par de folhas. Flávia Patrício explica que as aplicações ocorrem a intervalos de 15 a 30 dias com produtos cúpricos, como oxicloreto de cobre e hidróxido de cobre, estrobilurinas, como azoxystrobina e piraclostrobina, benzimidazóis, como tiofanato metílico e protetores como clorotalonil e mancozeb, além de misturas de fungicidas.
No campo o controle deve ter início no mês de dezembro e prosseguir até fevereiro/março, período do ano em que as condições climáticas são favoráveis para a doença e ocorre a formação e o enchimento dos grãos. As misturas de triazois com estrobilurinas, como ciproconazol + trifloxystrobina, epoxiconazol + piraclostrobina, azoxixtrobina + ciproconazol, são eficientes para o controle da cercosporiose, e empregadas também para o controle da ferrugem.
Os tratamentos com outros fungicidas como os triazois, como o tebuconazol e propiconazol; benzimidazois, como tiofanato metílico; estrobilurinas, como azoxystrobina e piraclostrobina; protetores como clorotalonil e mancozeb e cúpricos, como oxicloreto de cobre e hidróxido de cobre, podem complementar os tratamentos para a cercosporiose no período de formação de grãos.
Resultados
Há muitas pesquisas que relatam a eficiência dos produtos citados anteriormente, mas o mais importante a ser observado em campo é o controle preventivo da doença, especialmemte na época de formação dos grãos.
As pesquisas sobre o agente causal da cercosporiose encontram-se em andamento em diversas instituições, e pesquisas visando à identificação de genes de resistência à cercosporiose em materiais genéticos do IAC estão se iniciando, portanto, logo teremos mais informações sobre este importante patossistema.